Investigação - Publicações

Cartografias da Memória e do Quotidiano

Apresentação

A semente do projeto Cartografias foi lançada no início de 2010, quando reuni, pela primeira vez no âmbito da Capital da Cultura, com a saudosa e dedicada Maria José Laranjeiro na ESAG. Para além do natural e expectável envolvimento da escola no processo de preparação do evento que então se iniciava, pensei em particular que teria de haver na programação, na altura ainda em estado muito embrionário, um projeto que celebrasse a tradição da ilustração naquela escola.

Várias premissas contribuem para o desenho deste projeto. Primeiro, o programa de Arte e Arquitetura pretendeu desde sempre privilegiar a laboração dos artistas in loco e a produção de obras no seu âmbito a partir do contexto do concelho; depois, sendo a observação o primeiro momento de tal envolvimento e sendo o desenho, e em particular a ilustração que parte do esboço vivo sobre o real, áreas artísticas pelas quais nutro grande carinho e interesse, estavam lançadas as bases para que o Cartografias viesse a existir.

Duas vertentes estão aqui em diálogo, o jogo íntimo do ilustrador com o seu caderno de registo visual e a relação aberta com o objeto (gente, espaço, arquitetura, ações, momentos, mitos) em observação. Esta última, relação importante, experiencial, única na sua consecução, vem mais tarde a concretizar-se sob uma nova forma na sobreposição das imagens à cidade e à paisagem cultural, no reconhecimento dos lugares, dos rostos e das histórias, no confronto com os lugares e os mitos.

A atenção ao pormenor, a minúcia da observação, o sentido de empatia e sensibilidade, a poética e empenho, são, em definitivo as marcas de envolvimento destes ilustradores com o concelho. Anke Feuchtenberger leva-nos pela sua mão num ritmado percurso pelas ruas e veigas, acrescentando, numa narrativa simples e imediata, as leituras que a artista foi capaz de traduzir (literalmente também, já que a artista atravessa a barreira linguística com uma facilidade espantosa). Os seus cadernos são um registo quase fílmico das suas caminhadas, sensíveis ao que a rodeia de uma forma absolutamente perspicaz. Denis Deprez, artista que atravessa a linha que coloca a ilustração num lugar contíguo à pintura, faz uma leitura profundamente poética dos lugares, afirmando a atividade humana pela sua ausência, citando ações e práticas nos restos deixados à luz de uma manhã suspensa, enganadoramente eterna. João Fazenda, com um humor mordaz e uma composição cantante, orquestra pedaços das suas observações dos gestos comuns e dos lugares habituais com uma mestria que quase parece de criança prodígio. Marco Mendes mergulhou primordialmente nos mitos, levando-nos de arrasto para batalhas imaginadas e narrativas de eventos brutais, reinterpretando um imaginário recorrente na cidade e na História nacional. Nunca chegamos a perceber se aconteceu, ou se aquilo tudo partiu de relatos que um ancião local lhe contou. A minúcia de Nuno Sousa é tocante. Com a ponta afiada da caneta, desenrola finas linhas em espaços mínimos, registando atos e gestos também mínimos, mas não menores, prestando homenagem à acumulação de pequenas coisas que fazem os dias e os minutos das cidades. Finalmente, Ulli Lust, num registo muito próximo da caricatura, olha as pessoas, mulheres de várias idades, pessoas que em diferentes formas participam na vida da cidade e na própria construção da Capital da Cultura enquanto evento. é, no entanto, uma homenagem que ultrapassa a individualidade de cada uma das retratadas, porque sem nunca lhes dar nome, permite processos de identificação muito mais significantes.

Na verdade, o cumprimento de cada uma destas intencionalidades artísticas recebe uma dimensão acrescida quando em confronto com o espaço público. Nesta dimensão julgo estar o verdadeiro desafio deste projeto, trazer o gesto íntimo do registo no caderno ou diário visual dos artistas para a dimensão à escala do painel publicitário. E, nesse sentido, as caminhadas de Anke Feuchtenberger, o olhar solitário de Denis Deprez, o humor de João Fazenda, o delírio de Marco Mendes, a minúcia de Nuno Sousa e as pessoas que Ulli Lust conheceu, vêm justapor-se aos caminhos, às histórias e às próprias pessoas do concelho.


Gabriela Vaz-Pinheiro




Ao longo da sua existência de quase 30 anos, a ESAG sempre teve no Desenho o seu traço identitário, considerando-o como elemento matricial e transversal de toda a formação artística que tem vindo a propor.
No processo de adequação dos seus cursos ao modelo instituído pela Convenção de Bolonha, o aparecimento da Banda Desenhada e da Ilustração no seu elenco formativo resulta, assim, como uma extensão natural dessa prolongada relação com o Desenho e também como um aprofundamento e especialização de competências científicas e pedagógicas fortemente consolidadas. São disso exemplo a Licenciatura em Artes/BD/Ilustração e o Mestrado em Ilustração, como também a área de Especialização em Desenho Científico e Arqueológico do Mestrado em Desenho. Estas formações, todas inéditas em Portugal aquando da sua criação, pretendem contribuir, a partir de diferentes abordagens, para que o domínio genérico da ilustração, tanto no plano propriamente científico como enquanto área de profissionalização, adquira relevância, notoriedade e solidez.
é neste quadro que, logo nos primeiros contactos com a programadora da área de Arte e Arquitectura de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, Gabriela Vaz-Pinheiro, a Ilustração se começou a configurar como o domínio que melhor poderia revelar uma das principais valências da ESAG e corresponder a algumas das orientações estratégicas gerais de Guimarães 2012 e desta área de programação em particular – a relação com o espaço público, a proximidade às pessoas, o interesse em privilegiar o trabalho de artistas em residência reflectindo sobre o contexto local.
A concepção deste projecto, envolvendo o Departamento de Banda Desenhada e Ilustração, a Coordenação do Mestrado em Ilustração e a Direcção da ESAG, partiu dessas orientações genéricas para configurar um evento em torno de vários contrastes e complementaridades: a pequena escala íntima da generalidade dos suportes da ilustração vs. a dimensão quase monumental dos outdoors, que, ao invés da sua vocação publicitária, mostram obras singulares de artistas, alguns dos quais se pretendia que fossem mais próximos, partilhando algumas referências culturais, outros mais distantes, estranhos, propiciando novas perspectivas, um (re)conhecimento diverso de um território e de um pulsar humano que não poderiam ser pensados sem atender à omnipresença de indícios do passado – o património monumental, a malha urbana do centro histórico, a persistência de ritos e festividades tradicionais, os referenciais históricos e o imaginário mítico relacionados com a fundação da nacionalidade – bem como à indagação do presente, de um aqui e agora também pleno de contrastes, perplexidades e interrogações perante o futuro.
Foi, assim, em torno desta polaridade passado/presente que este projecto tomou a designação Cartografias da Memória e do Quotidiano e foi apresentado a um conjunto de ilustradores portugueses e europeus, convidando-os a conhecer Guimarães e a dar-nos a conhecer não apenas o resultado das suas deambulações e congeminações, mas também algumas pistas sobre o modo como foram pensando (com) o seu olhar.
E agora, o que resta? Celebrações. Várias.
Celebração do espaço, transfigurado pelas imagens. Celebração do olhar, da sua sagacidade, da sua densidade. Celebração do Desenho, da extraordinária desproporção entre os exíguos meios que necessita e a infinitude dos universos que cria. Celebração da Ilustração, da sua condensação e da sua minúcia, do seu humor e do seu espanto, da sua ingenuidade e da sua malícia, da sua poética. Celebração ainda do Desenho, da sua singeleza, do seu despojamento, da sua portabilidade assente na energia do gesto.
Permitam-me uma última celebração no âmbito de um dos primeiros eventos de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura – institucional, pessoal e necessariamente afectuosa: enquanto director e, nessa qualidade, representante da ESAG na coordenação deste projecto, não posso deixar de evocar quem não apenas dirigiu esta instituição durante mais de vinte e cinco anos e praticamente desde a sua fundação, assegurando a sua continuidade e progressiva consolidação e definindo a estratégia da sua sobrevivência e do seu futuro, como deu contributos de grande relevância, ao longo de uma vida de exemplar dedicação cívica e generosidade humana, para que a dinâmica cultural de Guimarães nos tenha conduzido até 2012 Capital Europeia da Cultura: Maria José Laranjeiro Pita da Costa (1952-2010).
Por fim, algumas palavras de agradecimento: a todos aqueles que na ESAG contribuíram para a concepção e coordenação deste projecto; à Gabriela Vaz-Pinheiro, pelo apoio e incentivo crítico ao longo do projecto; à equipa de produção de A Oficina, pelo seu profissionalismo, dedicação e resiliência; à equipa de Guimarães 2012 que acompanhou mais de perto a concretização deste evento; à Sociedade Martins Sarmento e à sua equipa, pelo acolhimento atencioso e eficiente que nos proporcionou. E a todos os artistas, que tão bem souberam interpretar o desafio que lhes foi lançado, e assim nos deram tantos motivos de celebração.


Paulo Leocádio | Diretor da ESAG


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