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13 / 07 / 2017

Curso de Pós-graduação em Banda Desenhada

A ESAG vai incluir na sua oferta formativa a partir de 2017/18 um curso de Pós-graduação em Banda Desenhada permitindo o aprofundamento de estudos neste domínio e completando assim o seu arco formativo nas áreas da BD e da Ilustração. 1.ª fase de candidaturas - até 8 de Setembro. Contacte os Serviços Administrativos da ESAG - sadm@esag-gmr.com / 253 410 235

Contextualização

Em 2006/2007, pela primeira vez em Portugal, a ESAG/Escola Superior Artística de Guimarães integrava num ciclo de estudos de licenciatura duas áreas cujo dinamismo criativo e crescente visibilidade exigiam um adequado enquadramento formativo no plano prático do “saber fazer” específico, devidamente sustentado em estudos históricos, teóricos e críticos: a Banda Desenhada e a Ilustração.

O pioneirismo desta licenciatura alargou-se aos estudos de 2.º ciclo com a criação do curso de Mestrado em Ilustração em 2007/08, permitindo o prosseguimento de estudos nesta área aos licenciados em BD/Ilustração pela ESAG e oferecendo uma possibilidade de especialização a graduados de outras áreas de formação, provenientes de escolas nacionais ou estrangeiras.  

Neste edifício formativo faltava a correspondente oferta de aprofundamento de estudos na área da Banda Desenhada, cuja necessidade tem vindo a ser confirmada pelo crescente número de candidatos que a procura. Esta lacuna é agora colmatada com a criação do curso de Pós-Graduação em BD.

 

Objectivos

Este curso de Pós-graduação em BD tem como objectivo central o de facultar aos seus estudantes as condições para a concepção, desenvolvimento e finalização de um projecto de BD tendo em vista a sua integração no contexto actual do mercado editorial. Pretende-se assim que os resultados da aprendizagem se materializem num produto final cuja apreciação crítica e avaliação sejam realizadas não apenas no contexto do curso, mas também por entidades e personalidades externas com experiência relevante nos domínios da divulgação, edição e comercialização de BD.

Com este curso pretendemos também consolidar uma comunidade formativa especificamente centrada no estudo da BD: reforçando entre os estudantes hábitos de discussão dos seus projectos; fomentando práticas colaborativas para o desenvolvimento e concretização dos mesmos; promovendo encontros regulares com autores, críticos, historiadores e editores, no sentido de constituir uma plataforma alargada para o debate de problemáticas relevantes nos planos científico-académico e artístico-profissional. Pretendemos assim reforçar o papel da ESAG como escola especializada nestes domínios de formação, tanto no plano nacional como no plano internacional.

 

Destinatários

O curso destina-se em primeira instância a graduados em BD/Ilustração ou em áreas próximas, preferencialmente já com experiência na criação de BD ou com uma consistente familiaridade com a linguagem e o universo imagético e narrativo da BD. Estes mesmos requisitos são extensíveis a quaisquer outros interessados independentemente do nível e área das suas habilitações académicas. Pretende-se garantir que os estudantes partilham um nível sólido e razoavelmente homogéneo de conhecimentos sobre BD que facilite a comunicação entre estudantes e formadores e potencie a eficácia formativa do curso.

 

Organização

Com uma duração equivalente a um ano lectivo (60 ECTS) o curso tem um carácter eminentemente prático centrando-se no desenvolvimento de um projecto de BD com orientação tutorial. Esta componente projectual é acompanhada de um conjunto de seminários de cariz teórico e teórico-prático que ao longo das primeiras cinco semanas do curso abordarão temáticas relevantes para a definição do projecto a desenvolver pelo estudante, designadamente: definição de objecto gráfico, desenvolvimento de personagens, construção de espaços e ambientes, argumento e texto, cor, técnicas e materiais. Numa perspectiva inovadora e experimental, algumas destas áreas temáticas serão associadas em módulos formativos híbridos em torno de questões como a importância da cor na criação e caracterização de espaços ou do estudo da relação da figura humana com o espaço.

Ao longo do desenvolvimento dos projectos serão realizados encontros com autores e investigadores convidados de reconhecido mérito, nacionais e estrangeiros, privilegiando-se áreas temáticas que contribuam para o esclarecimento e resolução de problemas suscitados pelos projectos em curso.

 

Orientação Tutorial
Num primeiro momento a orientação dos projectos permitirá o contacto de todos os estudantes com o conjunto dos docentes/tutores, após o que serão constituídos grupos de até quatro estudantes cuja orientação será assegurada por um único docente/tutor. As sessões de trabalho integrarão uma orientação personalizada do projecto de cada estudante. O debate conjunto dos vários projectos será também uma componente regular e importante do trabalho de cada grupo. Nesta mesma perspectiva serão realizados ao longo do curso encontros de todos os grupos e respectivos tutores com o objectivo de dar a conhecer os projectos em curso e promover a discussão crítica sobre o seu desenvolvimento.

A estrutura deste curso é o resultado da experiência da ESAG no ensino da BD e dos contributos dos estudantes que foram permitindo a melhoria contínua dos processos de ensino-aprendizagem.

 

Avaliação

Dado que a organização deste curso privilegia fortemente a componente de desenvolvimento projectual com orientação tutorial e consigna à componente curricular uma função de enquadramento e apoio à organização do projecto, a avaliação dos resultados incide apenas no projecto final e expressa-se através de uma menção qualitativa. Contudo, a componente da avaliação que consideramos mais relevante é o conjunto de apreciações críticas do grupo de orientadores/tutores ao longo do desenvolvimento do projecto e na sua conclusão, neste caso complementadas pela contribuição de um painel de personalidades externas à instituição com currículo relevante da criação, edição e crítica de BD.

 

Plano de Estudos

COMPONENTE CURRICULAR

Módulos curriculares

Horas

A – Desenvolvimento de Personagens

9

B – Espaços e Ambientes

9

C – Cor

3

AB – Figura Humana / Espaço

3

AC – Personagens / Cor

3

BC – Espaço / Cor

3

D –  Definição de Objecto Gráfico

15

E – Argumento e Texto

6

F – Técnicas e Materiais

6

FC - Técnicas e Materiais / Cor

3

SUB-TOTAL

60

COMPONENTE DE PROJECTO

 

Horas

G – Orientação tutorial

30

H – Encontros de grupo

12

H – Apresentação pública / Avaliação - Crítica

6

I – Sessões temáticas / Convidados

18

SUB-TOTAL

66

TOTAL

126

 

Módulos curriculares / Sinopses

 

 A – Análise, construção e desenvolvimento de personagens

Neste módulo serão dados a conhecer, a partir de exemplos concretos, os processos de criação de personagens individuais, as suas marcas distintivas físicas e psicológicas, as suas motivações pessoais e como melhor revelam a sua identidade através da interacção com a “família” de personagens a que pertencem (por coabitarem a mesma narrativa). Dentro desta abordagem – que considera a personagem individual e sua singularidade numa relação de interdependência com uma “família” – estudar-se-ão os tipos e arquétipos conhecidos de personagens e os lugares que ocupam na narrativa em função do seu desenvolvimento. Em paralelo, serão analisadas as opções tomadas pelos autores de diferentes géneros de BD em relação à passagem do real à representação, designadamente no que se refere ao estudo da anatomia e da locomoção. Não será aqui negligenciado o facto de na nossa contemporaneidade a abertura a outras culturas ter um impacto significativo na criação e desenvolvimento de personagens e na sua complexidade, assim como também o surgir de novas teorias da identidade a partir do real questionamento do indivíduo enquadrado no meio social e cultural. Deste modo, serão aqui objecto de estudo personagens “clássicas” como também personagens “críticas” e híbridas que coloquem em causa a identificação imediata do leitor/público.

 

B – Análise e construção de espaços e de ambientes

Este módulo visa introduzir o estudante aos aspectos da significação na representação do espaço narrativo, bem como a uma dimensão mais técnica dos principais sistemas de representação utilizados em BD.

Inicialmente será discutida a noção de espaço tal como é entendido pela narratologia na sua relação com o contexto, recorrendo-se a exemplos ilustrativos das suas variantes ao longo da história da BD – do espaço teatral ao espaço cinematográfico, da representação minimal à representação descritiva do espaço envolvente.

Num segundo momento, serão introduzidos os principais sistemas de representação espacial utilizados em BD (perspectiva linear, isometria, projecção ortogonal, etc.), relacionando-os com os campos da representação visual a que estão tradicionalmente associados para, em seguida, proceder à discussão das principais vantagens e desvantagens que cada sistema de representação apresenta do ponto de vista narrativo. Nesta sessão será ainda discutida a noção de “narrador visual” e como a subjectividade do seu ponto de vista se articula com a escolha do enquadramento.

 

AB – Figura humana no espaço

Neste módulo serão apresentados como objecto de estudo exemplos onde se pode constatar a construção de um espaço habitado coerente onde a figura humana se localiza e age de modo verosímil. Será central neste módulo o estudo das proporções e a relação entre medidas tomando como unidade métrica o corpo humano. Esta unidade métrica será considerada na construção do espaço bem como na definição de outros elementos que igualmente se posicionam e ocupam o espaço. Ainda neste módulo, serão apresentados exemplos de BD que demonstram o inverso da coerência e da proporção, como é o caso da fantasia, onde se joga intencionalmente com o desproporcionado e o grotesco. Neste último caso existe um verdadeiro jogo de escalas entre figura humana, objectos e espaço, procurando-se obter representações não convencionais.

 

C – Cor

Neste módulo serão apresentados exemplos paradigmáticos da aplicação de cor na BD segundo um conjunto de tendências principais possíveis de identificar, designadamente: a que atende a condicionantes económicas inerentes ao custo de impressão, a que mantem uma relação de grande proximidade com o real, a que tem como principal desígnio a aplicação dos contrastes cromáticos tendo em vista a produção de imagens apelativas e a que reforça aspectos da narrativa. Serão analisadas criticamente as relações que se podem estabelecer entre estas tendências e momentos específicos da História da BD, o desenvolvimento tecnológico e os diferentes géneros de BD. 

 

AC - Personagens e cor

Neste módulo serão estudados exemplos onde seja evidente uma intencionalidade na atribuição de cor em função dos aspectos estáveis do carácter das personagens assim como na associação de nuances de cor às variantes emocionais pelas quais passam as personagens (raiva, melancolia, tristeza, angústia, etc.). Em complementaridade, estudar-se-á a cor atribuída aos adereços que reforcem a expressão da identidade individual (peças de vestuário entre outros), como também a cor que domine os adereços comuns aos grupos de personagens (“famílias”), como por exemplo: preto e cores escuras ou cores puras e brilhantes. Neste último caso, estudar-se-á a cor como elemento congregador dos elementos individuais num determinado grupo. Será ainda proposta a análise das influências cromáticas mais subtis proporcionadas pelo ambiente sobre as personagens (e a sua associação à expressão de sensações): ambientes quentes e o domínio do vermelho e das cores quentes em geral, ambientes frios e as cores pálidas e frias.

 

BC -  Espaço e cor

Neste módulo será estudado o uso da cor no contexto da representação de espaço na BD e os efeitos narrativos que diferentes abordagens cromáticas poderão suscitar. Será demonstrada numa perspectiva histórica a variedade de tendências da paleta cromática usada para representar o espaço, ora reflectindo preocupações a nível de realismo e verosimilhança, ora preocupações de teor emocional, atmosférico ou narrativo. Será estudada a forma como o uso da cor pode estabelecer ambientes e reproduzir atmosferas e cenários climáticos diferentes, aliando-a à representação de diferentes manifestações lumínicas. Abordar-se-á também a forma como a selecção e aplicação cromática numa vinheta, prancha ou dupla página pode influenciar a percepção da história e o percurso da leitura, tornando-se uma ferramenta narrativa.

 

D – Definição de objecto gráfico

Este módulo enquadra a produção de banda desenhada como o reflexo de uma época, identificando as diferentes forças de produção (ilustradores, editores, directores de arte, etc.) e relações que estes estabelecem entre si.

Num primeiro momento será apresentada uma visão histórica sobre a origem e construção da linguagem da banda desenhada (séc. XVIII e XIX), a relação deste processo com a cultura do seu tempo e a consequente evolução das respectivas circunstâncias de produção até aos dias de hoje.

Num segundo momento, serão introduzidos os principais nichos de produção de banda desenhada da actualidade, onde serão identificados os seus principais mercados e linhas de acção, como também algumas das propostas que têm vindo a configurar zonas limítrofes da banda desenhada como medium.

O terceiro momento deste módulo é inteiramente dedicado a analisar diferentes configurações da noção de projecto e a discutir a importância de uma metodologia projectual.

Por fim, o último módulo teórico é dedicado ao panorama da promoção e divulgação do projecto, onde se identificam intervenientes e reflecte sobre as diversas etapas de produção de um projecto, desde a sua construção até ao encontro com o leitor.

 

E – Argumento e Texto

Neste módulo serão abordados, por via de exemplificação diversa, dois níveis distintos de relações que o texto estabelece com a imagem no campo da BD.

Por um lado a sessão irá abordar essas relações de um ponto de vista da narratividade: que efeitos podem surgir da relação entre o conteúdo do texto e as situações expressas nas imagens? Como gerir a informação que se disponibiliza ora através de texto, ora através da imagem? O que sabe o narrador verbal e o que sabe o narrador visual?

Por outro lado, a sessão irá ainda abordar as relações imagem/texto do ponto de vista da visualidade: como organizar o texto visualmente? Que tipo de balonagem adoptar? Que fonte tipográfica escolher dado determinado tipo de desenho?

 

F – Técnicas e materiais

O módulo Técnicas e Materiais dedica-se ao estudo dos vários materiais e técnicas usados na produção de BD desde as suas primeiras manifestações até à actualidade, abordando técnicas tidas como convencionais e avançando em direcção à hibridez técnica evidente na produção corrente. Nesse sentido, será analisada a diferença entre o momento polifásico de produção e o da reprodução de BD, assim como as limitações que as tecnologias de reprodução podem impor sobre as opções de materiais e técnicas usados na criação.

Será abordado o fenómeno do uso colectivo de técnicas e materiais ao longo de diferentes períodos da história da BD, identificando movimentos evidentes e as condições em que surgem, assim como a questão de “estilo” e a natureza singular da combinação de técnicas e materiais de certos autores que consequentemente resistem à inclusão num padrão. Observando tendências recentes e actuais, estudar-se-á a integração da tecnologia digital no processo de trabalho do autor de BD, incluindo casos em que são adoptadas como ferramentas exclusivas de trabalho, de maneira a compreender as implicações que estes meios poderão envolver, desde a produção até à edição, física ou digital.

De maneira mais focada, ir-se-ão analisar efeitos gráficos específicos de diferentes técnicas e materiais, assim como a adequação do seu uso em diferentes fases da produção de BD, desde a formalização de ideias à finalização.

 

FC - Técnicas e materiais e cor

Este módulo é um momento de experimentação e aplicação de conhecimentos abordados em sessões teóricas acerca de materiais e uso da cor na prática da BD. Serão exploradas aplicações da cor, técnicas e materiais associados à realização de BD convencional, nomeadamente a representação cromática literal da realidade e o uso de cor homogénea entre linha clara, assim como aplicações divergentes, em que o uso da cor visa efeitos atmosféricos, narrativos ou emocionais. Serão também estudadas a pureza e a hibridez no uso de técnicas e materiais de cor, reflectindo intenções gráficas variadas e uma aproximação de outras áreas das artes visuais.

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